Chuva, muita chuva.
Que leve tudo então…
Chuva, muita chuva.
Que leve tudo então…
Às vezes, um pouco. E só.
Porque hoje os pensamentos estão todos bagunçados.
E porque a ideia que veio já se foi…
Mas poucas palavras também tem seu valor.

Pois é pra quê?
O automóvel corre a lembrança morre
O suor escorre e molha a calçada
A verdade na rua a verdade no povo
A mulher toda nua mas nada de novo
A revolta latente que ninguém vê
E nem sabe se sente pois é pre que
O imposto a conta o bazar barato
O relógio aponta o momento exato
Da morte incerta a gravata enforca
O sapato aperta o país exporta
E na minha porta ninguém quer ver
Uma sombra morta pois é pra que
Que rapaz é esse que estranho canto
Seu rosto é santo seu canto é tudo
Saiu do nada da dor fingida
Desceu a estrada subiu na vida
A menina aflita ele não quer ver
A guitarra excita pois é pra que
A fome a doença o esporte a gincana
A praia compensa o trabalho a semana
O chopp o cinema o amor que atenua
Um tiro no peito o sangue na rua
A fome a doença não sei mais porque
Que noite que lua meu bem pra que
O patrão sustenta o café o almoço
O jornal comenta o rapaz tão moço
O calor aumenta a família cresce
O cientista inventa uma flor que parece
A razão mais segura pra ninguém saber
De outra flor que tortura
No fim do mundo tem um tesouro
Quem foi primeiro carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa que arranje um carro
Pra andar ligeiro sem ter porque
Sem ter pra onde pois é pra que
Trecho do livro “Maia” de Jostein Gaarder. Me fez pensar um tempão…
“Imagine que, há muitos bilhões de anos, no momento em que tudo foi criado, você estivesse no umbral desse conto de fadas e tivesse a opção de nascer neste planeta se quisesse. Não saberia quando ia viver nem quanto tempo passaria aqui, mas, fosse como fosse, seria apenas questão de alguns anos. Só saberia que, se decidisse um dia nascer neste mundo, quando chegasse a hora, ou, como se diz, quando ‘o ciclo se completasse’, teria de deixá-lo e a tudo quanto nele existe… Qual seria a sua decisão se você tivesse a possibilidade de escolher? Optaria por uma vida breve aqui na Terra, para depois de poucos anos separar-se de tudo e nunca mais voltar? ou diria ‘não, obrigado’? Você só tem essas alternativas. É a regra. Se optar pela vida, também está optando pela morte.”
Jostein Gaarder (Maia)

Era um sábado como todos os outros, ou quase todos.
Não era um dia ensolarado, havia muitas nuvens no céu, embora estivesse claro e quente. Talvez até um pouco quente demais para o inverno.
Tinha acordado cedo.
E apesar de não ser tão natural para um fim de semana, já que mesmo durante a semana não andava conseguindo acordar muito cedo, não se espantou.
Sentiu-se bem como se tivesse dormido uma noite inteira. Profundamente, sem interrupções, sem sobressaltos.
Essa noite a insônia passou longe dele. Mas não dormiu cedo. Passava das duas da manhã.
Não, não foi festa. Não foi um passeio. Simplesmente ficou acordado curtindo a noite. Sozinho, no escuro. Animado, pensando, sonhando acordado.
E foi assim que, depois de sonhar a noite e de sentir seu sonho real, finalmente pôde sonhar à noite.
E após acordar, lembrando de sua noite e dos seus sonhos, se sentou e finalmente achou a inspiração para escrever.
E ainda antes de começar a escrever pensou tranquilo: “essa vai ser uma ótima estória”.
Não não, não é que estou sem tempo de escrever, ou que esteja atrasado, ou cheio de coisas para fazer e não dá tempo de tudo. Também não que não seja isso. Mas o que quis dizer é que tenho falado demais do “tempo” aqui.
Então o que quero dizer é que chega de falar do tempo. Chega de ficar o tempo todo falando dele.
Tá, eu sei que estou falando de novo nele. Considere isso então uma despedida. Se um até logo, ou um adeus isso depende.
De toda forma, não é errado dar importância ao tempo. E já dei muita.
Agora vou me dedicar mais a aproveitá-lo. Um pouco de cada vez. Os bons minutos, as horas agradáveis, os dias felizes. Aproveitá-los no presente. Lembrarei é claro depois, não digo para esquecer, mas não ficarei preso a eles. Nem também esperando os próximos.
O melhor tempo é esse mesmo instante.
E pensar que os instantes são quase sempre deixados de lados ao pensar em dias, semanas inteiras, anos.
Pense pequeno. Pense nos instantes.
Como diz uma grande amiga, quais seus melhores sessenta segundos de hoje?
Os meus? Até o momento, esses de agora.
^^
Pedacinho da música “Caras como eu”
“Não vou mais medir o tempo
Não vou mais contar as horas
Vou me entregar no momento
Não vou mais tentar matar o tempo”